O Medo da Morte

Atualizado: 11 de Out de 2020

Sentimo-nos bem e felizes até que o Rx de rotina revela uma «mancha». São pedidos mais exames, porque não se percebe exatamente o que é. O coração dispara. As nossas tentativas de concentração são infrutíferas. A nossa mente vagueia desvairada. Não conseguimos dormir. Temos pesadelos. O medo invade-nos. O que fazemos: congelamos, ficando sem saber o que fazer ou pensar, ou fugimos ao que estamos a sentir, fazendo coisas para nos distrair. Estas são duas respostas mecânicas que nos permitem sobreviver, desde tempos remotos, e que nos permitem esconder as emoções escondidas por trás do medo. O que é que ele esconde?

“Usem cada distração como um objeto de meditação e elas cessam de ser distrações.”

Mingyur Rinpoche

Sentimos que vamos cair no abismo sem termos nada a que nos agarrar. Sentimo-nos dentro de um buraco muito escuro. Queremos dormir para poder acordar numa outra realidade diferente. Queremos poder carregar num botão, como se fossemos um robô, desligar e voltar a ligar. Fazer reset. Somos bombardeados por tantas emoções que é difícil entendermos racionalmente o que nos está a acontecer. Tristeza. Raiva. Dúvida. Descrença. Pânico. Terror. Desencantados e sem esperança. Atordoados. Nervosos. Inseguros. Magoados. Vulneráveis. Queremos agarrar-nos ao que éramos mas a vida diz-nos para largar e reconstruir de novo. A morte bate à porta. É a nossa porta. A vida acontece-nos.

A morte não acontece apenas quando largamos o nosso corpo físico. A “última morte” é apenas a derradeira de muitas que vamos tendo ao longo da nossa vida. Podemos ter mais consciência disso ou não. Talvez, a maior parte de nós, passe pela vida adormecido, negando e rejeitando a essência cíclica e impermanente da vida. Resistindo contra si próprio e a sua natureza profunda. As “pequenas grandes” mortes que vamos tendo ao longo da nossa vida podem ser um excelente campo de treino para a prova final (um dos grandes portais energéticos que se abrem entre este mundo e os outros). Vivemos separações, mudanças de casa, trabalho, país, a doença acontece-nos a nós e aos outros que amamos. Vivemos entre um lado e o outro da ponte da vida e da morte constantemente. Vivemos entre um lado e outro do rio da vida e da morte permanentemente. Quando algo ou alguém nos empurra para podermos fazer a travessia não é por maldade, brincadeira de mau gosto, porque errámos ou pecámos, mas porque simplesmente fazemos parte da rede da natureza da vida e da morte. Porque precisamos entrar dentro da rede para a reconhecer e viver dentro de nós. Porque só apenas através do conhecimento da sua natureza conseguimos Ser tudo aquilo que queremos Ser.

Todos os seres humanos querem ser felizes, ter paz, tranquilidade, amar e ser amados. Todos. Queremos ser livres do sofrimento. No entanto, raramente o conseguimos ser na sua plenitude. A maior parte do tempo fingimos que somos felizes. Temos um trabalho confortável e onde nos pagam bem, temos um companheiro que nos faz sentir seguros, temos saúde, uma casa e um carro que nos dão muito conforto, amigos, temos a aprovação da família e da sociedade. Basta perdermos alguma destas coisas que o nosso mundo implode para o abismo e para a profundidade avassaladora do nosso ser emocional.

Qual é o segredo da leveza e da liberdade das amarras do cataclismo emocional? Aceitação e Integração. Entrar na rede da essência da Vida e da Morte. Implica conhecer e viver os ciclos da vida em nós. Entregarmo-nos e não nos separarmos, querendo estar acima de tudo e todos. Implica ter muita humildade e não nos considerarmos seres especiais. Implica sentirmos que somos parte intrínseca da rede tal como todos os outros seres vivos, visíveis e invisíveis, pequenos ou grandes. Não havendo superior ou inferior. Nós somos a rede. A rede é cíclica e impermanente. A rede funciona morrendo e refazendo-se constantemente. Tal como nós.

Durante muito tempo rezámos, pedimos ajuda e milagres aos seres que consideramos superiores e detentores de poderes mágicos, sejam eles de origem religiosa ou animista. Ainda vivemos a visão paternalista e do patriarcado em que só fora de nós podemos encontrar as respostas. Repelimos o corpo da Terra, e logo o nosso, e vivemos a olhar para o céu e as estrelas esperando ver «Deus». Na fase atual da evolução ainda estamos muito mais perto da natureza animal e reptiliana do que da intuição da natureza humana que somos. Aprendemos, ao longo dos séculos, e sentimos que estamos separados. Quem já não se sentiu só mesmo rodeado de muitos? Quem já não verbalizou que tem saudades de voltar «a casa»? Quem nunca sentiu que a Terra, e o seu corpo, não é a sua verdadeira casa?

O medo que sentimos, quando a vida nos oferece a mudança cíclica da sua natureza, é a morte que veio ao nosso encontro. A morte liberta. Pedimos intrinsecamente para sermos felizes, para sermos livres do sofrimento, e o Amor da Vida e da Morte vem ao nosso encontro com esse propósito. «Cuidado com o que pedes!» Mas vivemos ainda tão apegados ao sofrimento que não conseguimos reconhecer a bondade e compaixão dos ciclos da vida. Não conseguimos ver que precisamos desconstruir os alicerces criados, e com os quais crescemos, para começar a construir uma nova fundação. É uma oportunidade para para nos libertarmos daquilo a que estamos apegados, de dentro para fora. Não significa deixar de nos relacionar com o outro. Significa relacionarmo-nos de uma forma diferente. Reconhecendo que somos «inteiros» e que não precisamos que a origem da felicidade venha através do outro. Integrando que fazemos parte da rede e que nunca estamos sós.

Quando encaramos a morte descobrimos a nossa alma e os segredos da nossa existência. As emoções avassaladoras fazem parte da travessia da ponte, do rio. Quando reconhecemos este presente, as sensações não desaparecem mas ficam mais leves.

Quando uma experiência traumática ou doença física grave surge, pode ser uma emergência espiritual para nos despertar para os segredos da vida. Abre-se uma oportunidade para espreitar para dentro do limiar do invisível e olhar para o “Deus” que tanto procuramos.

O medo da morte é o medo da liberdade.

Que o nosso mantra de todos os dias seja:

“Que eu possa morrer hoje.”

Ana Catarina

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