Perda Gestacional

Atualizado: 11 de Out de 2020

A perda gestacional é uma realidade pouco falada entre nós. E quando digo «pouco falada» quero dizer que não é um assunto fácil de se abordar. Ela é uma realidade que está bem presente entre nós mesmo que a tentemos negar e encobrir. Está rodeado de tabus, preconceitos e, mais uma vez, por dificuldade em encararmos a morte, mesmo na gravidez e no parto, não é um tópico que queiramos desenvolver. As instituições tentam apressar o processo de perda. Os profissionais, bem como familiares e amigos da mulher/ casal, dizem imensas vezes: “Vai voltar a engravidar”. “Ainda é muito nova.” “Não pense mais nisso.” “Vai correr tudo bem. Acontece.” “Foi vontade de Deus”. “Talvez tenha sido melhor assim.” Engolimos as lágrimas. Engolimos o choro. Engolimos a angústia que sentimos de não poder falar com ninguém. Escondemos a necessidade que temos de nos expressarmos. Afinal: nem era um bebé. Era apenas um feto! Quanto mais rapidamente “resolvermos o assunto” e voltarmos à nossa vidinha normal, melhor. É insolentemente des-social (como quem quer dizer que não faz parte da etiqueta social) associarmos o assunto “Morte” ao nascimento. «Só morrem os velhos e os trapos.» As regras sociais ditam que existe uma ordem natural de acontecimentos pela qual temos que nos reger, e tudo o que fuja a este padrão, a esta normose, não tem que existir. Nós nascemos, crescemos, envelhecemos e só depois podemos morrer. “É a ordem natural”. Natural? De quem? Queremos naturalizar uma coisa que não é natural e logo nunca nos vai ser possível cumprir. Os humanos (como se fossemos uma espécie afastada nos ciclos da natureza) querem uma sequência lógica do ciclo vital e tudo o que a inverta não é aceitável! E qual é a sequência lógica? A morte existe em qualquer altura. É permeável à própria existência. Já nasce ao lado dela. Uma não existe sem a outra. Encobrir e perpetuar uma mentira apenas nos trás mais sofrimento. Este é o efeito das normoses. Quereremos normalizar e naturalizar uma coisa que não o é.

Adoro a Sheela Na Gig. É uma representação do feminino, de uma civilização pré-cristã que adorava a Deusa Mãe.

Representa a fertilidade, nascimento e morte, ferocidade, proteção e sexualidade. A sua vagina representa a porta do tempo. Pois a porta do nascimento é também a porta da morte. A mãe é ambos. Já na própria conceção, quando o óvulo se une ao espermatozoide, estas células vão ter que deixar de ser quem eram para se fundir uma na outra e multiplicar-se. É através da morte que se gera vida.

Fugir a esta realidade não nos trás paz e tranquilidade. Apenas perpetua a nossa agonia e medos.

Não viver o luto, a dor do luto, as emoções oscilantes, das perdas que nos acontecem (quando o nosso bebé morreu antes de nascer, morreu depois de nascer, ou, por razões várias, optámos por abortar e não prosseguir com a gravidez) e fingir que está tudo bem, negligenciando a dor, não acolhendo e caminhando todo o processo de luto, pode deixar marcas, memórias profundas. Pode até parecer, no momento, que conseguimos saltar esta perda e continuar com a nossa vida. Mas mais tarde este fantasma pode voltar à nossa vida para nos lembrar do luto que não atravessámos. Atravessar não é o mesmo que saltar.

É muito importante dar visibilidade às perdas, à dor, aos lutos, a este ritual de passagem.

Acolher a mulher, o casal, em tudo aquilo que estiverem a sentir, nesta etapa da sua vida é fundamental para o seu renascimento pleno (físico, emocional, espiritual).

As perdas são várias. O luto social e familiar do sonho de ser mãe e pai que não se materializou. Toda a roupinha que compraram, o quarto montado e pintado. A morte de um sonho. O luto do corpo e útero da mulher que passou por esta experiência e que tenta encontrar explicações para o que aconteceu (quando é um aborto espontâneo) e o sentimento de culpa e questionamento é grande: o que é que há de errado com o meu corpo? Não sou capaz de gerar um bebé. É importante fazer as pazes com o nosso corpo e não abraçar o medo de que poderá voltar a acontecer.

É importante não ficar apegado ao imaginário deste bebé que viria a nascer para que, numa futura gravidez que vingue, não se sobrecarregue o novo bebé com o fantasma do outro que não nasceu.

Quem atravessa a perda o que pode fazer:

- Começar a sentir a morte como fazendo parte dos ciclos da vida.

- Viver as perdas e aceitar todas as emoções que nos atravessam com elas.

- Expressar as nossas emoções num espaço seguro e onde sejamos acolhidos independentemente do que estejamos a sentir, sem nos sentirmos julgados, com vergonha, com medo de sermos rejeitados, com medo de que nos chamem “fracos”. Num espaço onde não nos rotulem como “muito sensíveis” e/ou “depressivos”.

- Dar-nos colo e tempo.

- Praticar a escuta ativa e compaixão para connosco mesmos.

- Aprender a expressar as nossas necessidades genuinamente.

Como podemos ajudar?

- Aprender a estar com as nossas emoções primeiro. Aprender a praticar a escuta ativa de nós próprios. Aprender a dar-nos compaixão. Aprender em estar em silêncio.

- Estar disponíveis para ouvir sem aconselhar e/ou julgar. Não deixar que o sentimento de que não podemos fazer nada para ajudar nos impeça de estar próximos. Não evitar a mulher / casal porque nos sentimos desconfortáveis. Quando sentimos que os amigos fogem de nós, a nossa dor aumenta.

- Permitir e encorajar a expressão das emoções, da sua tristeza, raiva, como eles a estão sentindo no momento. Não dizer que sabemos como eles se sentem. Podemos entender, mas não saber. Mesmo que tenhamos passado por uma situação parecida, somos todos diferentes, temos histórias de vida diferentes e temos formas e tempos diferentes para expressar as nossas emoções.

- Encorajar a serem pacientes consigo mesmos e a não esperar muito de si. A não impor quaisquer "deveres" a si mesmos.

- Oferecer ajuda prática (compras, comida, refeições, cuidar de outros filhos, etc)

- Oferecer o toque, a massagem, técnicas de relaxamento e bem estar.

O processo de luto não é uma linha reta. Tem oscilações e não tem um tempo definido. Hoje podemos estar bem, tranquilos, em paz e no dia seguinte uma avalanche de emoções voltar a invadir-nos.

Precisamos acolher a imprevisibilidade da vida e das nossas emoções, sem julgamento. Nunca dizer: “eu já devia ter superado isto.” Mais uma vez, a vida é cíclica e o que nos acontece nela permanece sempre connosco, faz parte de nós. A forma como vivemos e sentimos as nossas emoções, como olhamos para elas é que pode ser diferente.

Também acredito que emoções não aceites, rejeitadas e não vividas por nós acabam por se manifestar no nosso corpo mais tarde em forma de memórias materializadas no nosso corpo físico. Muitas vezes em forma de doença. A emoção rejeitada é uma rejeição de nós próprios. Não há dor mais profunda que esta: a nossa não aceitação. E quando não nos aceitamos dizemos ao nosso corpo que não queremos viver. Viver plenamente. Então não vivemos. Materializamos a doença, um sintoma.

Não podemos separar o nosso corpo do nosso espírito.

Caminhemo-nos para ser inteiros


Ana Catarina

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