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ESCREVER E LER - RITUAL DE REFLORESTAMENTO


Exercício da disciplina Medicina Narrativa 2 - Análise das obras/expressões:


"PALIATIVO: I. Que serve para paliar. 2. Remédio que não cura mas mitiga a doença. 3. Recurso para atenuar um mal ou adiar uma crise; adiamento. 4. Disfarce.”

Marques, Susana; Agora e na hora da nossa morte; Tinta da China; 1ª Edição; 2013


“Sociedade Paliativa”


Título do livro de Byunk-Chul Han

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Ouço muitas vezes usarem o termo paliativo de forma indevida, como se de um penso rápido se tratasse, que tapa algo indevido, e que tem um propósito pobre e desprezativo. Vou tapar para não olhar! Não vale a pena olhar! "Não há nada a fazer!!" Assim vou fugir a uma realidade, que é de todos, e abandonar quem mais precisa de suporte (médico, cientifico, emocional, social, familiar, espiritual, etc) numa altura de grande vulnerabilidade da sua vida. Infelizmente esta é a postura que ainda a grande maioria da sociedade tem, inclusive profissionais de saúde. Paliar, os Cuidados Paliativos não são um parente pobre da medicina. São uma especialidade intensiva como outra qualquer, onde o investimento na formação é imprescindível. Infelizmente existem tantos preconceitos como um analfabetismo gigante em torno desta área de atuação fundamental.

A palavra "paliativo" tem origem no latim pallium, que metaforicamente pode significa tapar, disfarçar ou encobrir, dissimular. Esta é a opção normotica que muitos escolhem, sem conseguir olhar para a realidade do que esta área da medicina nos tem trazido de aumento de qualidade de vida, de investimento nas pessoas e em tudo o que elas são, principalmente quando estão mais vulneráveis. Pallium também quer dizer cobrir (com um manto), amparar, abrigar. Significa não abandonar ninguém. Não significa apenas dar a mão. Significa prestar cuidados intensivos de qualidade, nas diferentes vertentes do que significa ser humano. Significa investigar, investir, prestar cuidados de excelência, aproximar, relacionar, investir na relação em qualquer momento da vida, religar, reconhecer, testemunhar, dignificar.


Através da leitura do texto e título do livro, posso constatar que fico momentaneamente retida nos meus próprios pensamentos, história, memórias, experiências de vida, enquanto pessoa e profissional de saúde que trabalha em cuidados paliativos. Enquanto doula da morte e fundadora da comunidade de doulas. Enquanto formadora que trabalha estas temáticas na comunidade. Enquanto influenciadora ativista e animista da ciclicidade naturalmente humana esquecida. Enquanto apaixonada ativista do pensamento crítico que reflete sobre as normoses sociais que nos conduzem ao sofrimento e à morte violenta (no sentido traumático). Enquanto pessoa ancestral que carrego nas minhas memórias e por respeito aos que viveram antes de mim, que falam através de mim. Enquanto pessoa que sente.


Quando leio estes textos, volto momentaneamente para dentro de mim. Faço uma pausa reflexiva. Não fico fico bloqueada, no processo de escuta através da leitura das restantes palavras escritas dos autores. Não deixo de escutar o outro, através das palavras que escreve. Mas preciso parar e respirar. Voltar atrás. Reler. Reler. Este movimento tão precioso dentro da velocidade estonteante em que vivemos. Preciso sentir-me através do que o outro diz. Preciso de tempo e espaço para me sentir. Preciso ouvi-lo, outra vez, e quem sabe alcançar uma outra perspectiva. Quero entende-lo. Quero aproximar-me do corpo dele e, nos limites próprios e precisos de uma relação, abrir espaço para que ela se estabeleça. Quero crescer com o outro, questionando e aprofundando o que o outro diz, não precisando concordar com ele mas mantendo a chama do diálogo acesa. “Concordar em discordar”. Crescer com a diferença do outro, permanecendo com ele, mesmo que à distância. Fazer ouvir a minha voz, quem sou, manifestando-me na diferença. Vendo quem sou através do outro, pela diferença que somos.


“Há homens com quem se pode aprender a ver aquilo que dentro de nós existe e não sabíamos.” (Al Berto, O anjo Mudo, citado por Luís Quintino em A geometria do amor, pág. 272) Diria que há livros, textos, palavras que nos espelham, não só pelo que somos de iguais, mas pelo que somos de diferentes. Ajudam-nos a mergulhar e olhar partes antes não vistas e sentidas. Porque “as coisas cruéis iluminam sentimentos que as coisas belas não conseguem.” (Augustina Bessa Luís, citada por Luís Quintino in A geometria do amor, p.241). No sentido de que a violência gratuita da normose, que descubro nestas expressões, iluminam o espaço da minha voz, de quem sou no mundo. Abrem espaço para eu Ser e testemunhar-me neste processo. Gosto de quem cresci a ser hoje. Do quanto desaprendi para ser e o quanto ainda tenho de caminho a percorrer. Há livros, textos, palavras, que me ajudam a ser pertença no mundo porque passo a perceber o meu lugar no seu corpo.


Para mim as palavras têm uma força imensa. São dimensões interiores do nosso cosmos interno que se manifesta fora. A oralidade, e a sua materialização escrita, têm o poder de aproximar, de relacionar, de imersão erótica dos corpos, que se descobrem através dos ângulos invisíveis do nosso olhar egocêntrico, e que se perdem num corpo só. Corpos que se morrem para se encontrarem. As palavras podem fundir os corpos, respeitando a individualidade e descobertas de cada um. As palavras podem ser medicina. Também têm o poder de destruir, re-traumatizar, envenenar, colonizar e capitalizar.


Qual é o objetivo de quem escreve? Qual é o objetivo das palavras que leio? Qual é o propósito da pessoa que as escreve e sente? (incluindo-me a mim própria) Qual a sua história? Apenas vomita o seu espaço interno no texto que leio ou Consagra, como num ritual, aquilo que pretende trazer ao mundo? Escreve um diário, que será apenas lido por ela, ou escreve para a comunidade? Tem uma postura narcisista perante a pluralidade de um mundo doente e traumatizado ou antes uma atitude compassiva, sábia, perante as necessidades de quem procura a cura (não física)? Ao escrevermos, podemos escolher o lado do veneno, da normose, comercialização, colonização e capitalizar ainda mais o mundo em que vivemos. Por outro lado, o sentido de responsabilidade coletiva, da medicina natural da palavra oral e escrita envolve, abraça, previne, foca-se na saúde e não em causar mais doença. Não basta plantar uma semente que irá converter-se em árvore. É preciso ter a sabedoria para entender se essa árvore será benéfica para toda a floresta, e todos os seres que nela habitam, ou se será um ser invasor, não autóctone, que irá progressivamente, invadir todas as outras espécies.


Para mim a escrita é um ritual de aproximação. É medicina para um mundo em dor (física, emocional, social, comunitária, etc). É um ritual de reflorestamento, parafraseando Ailton Krenak, das nossas individualidades comunitárias que se têm isolado da sua essência natural, com todos os traumas gerados. É um processo terapêutico, medicinal, tal como está na raiz da medicina narrativa. Quando leio e narro procuro medicinar.

A morte é Vida e medicina. Assim como paliar. É preciso reflorestar os nossos dicionários internos para sermos, no mundo, cura.


“O que conseguimos ver não é independente do posto onde nos situamos e da sua relação com aquilo que estamos a tentar ver.”(Amartya Sen, A ideia de justiça, citada por Luís Quintino in A geometria do amor, p.218)


Somos todos os outros e é por eles que escrevo.


Ana



Inspirações Bibliográficas que amo:


Quintino, Luís. A Geometria do Amor. Editora Omega. 2ª edição. Novembro 2014


Krenak, Ailton. Futuro Ancestral. Companhia das letras. 2022


Han, Byung-Chul. A sociedade paliativa. Relógio D’Água. Agosto 2020.


Infante, Ana. A passagem. Oficina do livro. 2023.

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