Image by Ann Savchenko

O que é uma Doula?

Há alguns anos atrás, o início e o fim da vida eram acompanhados, em casa, maioritariamente pelas mulheres. A Doula pretende ocupar um espaço vazio no sistema e fazer a ponte entre o antigo sistema e o novo. Resgatar a sabedoria dos nossos ancestrais, a nossa sabedoria inata, e uni-la à luz da nova ciência e tecnologia.

A Doula do final da vida é alguém que conhece e compreende a fisiologia do processo do final da vida e morte (existem sinais e sintomas que acontecem nesta altura e outros que não devem acontecer. É importante ter alguém que compreenda e saiba a diferença), que respeita e assegura as necessidades básicas da pessoa que está nesta etapa da vida e, acima de tudo, respeita as opções desta e da sua família / amigos, apoiando nas decisões informadas e conscientes.

O papel de doula no fim da vida é acompanhar a pessoa que está a morrer, e os seus entes queridos / amigos, durante os últimos anos, meses, semanas e dias de vida.  


A doula fornece apoio emocional, físico, espiritual, educativo e informativo para aqueles que aceitam e abraçam o morrer como um período da vida, não apenas um final abrupto. 

 

No entanto, o seu trabalho vai muito além disso. Existem muitos medos e mitos associados à morte e ao morrer. A doula ajuda a desmistificar, trazer clareza, leveza, uma nova visão e compreensão sobre a morte. Não precisamos estar nos nossos últimos dias de vida, com uma doença crónica, para pensarmos sobre o nosso final de vida, para planearmos os nossos últimos dias nesta vida. A morte não acontece apenas quando perdemos o nosso corpo físico. Este é apenas o último grande exercício de desapego nesta vida. Existem muitos outros. Existem muitas “mortes” na nossa vida. Muitos exercícios e sentires de lutos. É importante des-rotular a palavra morte e retirar-lhe o peso a que tem sido submetida. Dar-lhe outro sentido. Leveza de a Viver. A doula pode ajudar a fazer esta transição. A doula acompanha pessoas “não doentes” também. 


A doula do final da vida apoia tanto a pessoa que está a morrer quanto a sua família e amigos, para ajudá-la a viver esta etapa da vida ao máximo.


A doula é alguém que tem consciência do seu próprio processo de morte. Dos seus próprios ciclos de vida-morte- vida e consegue estar com o outro com compaixão, mais do que em empatia.


A doula é alguém que se reconhece como fazendo parte dos ciclos da vida.
A doula é alguém que se compromete em reli-gare com a natureza, a Terra (Ser Vivo, Mãe Ventre, onde vivem todos os outros) e todos os seres vivos, pequenos e grandes, visíveis e invisíveis.


A doula é alguém que se dedica em trazer de volta a consciência da Unicidade entre todos os Seres Vivos.

A doula é alguém que compreende o processo do nascimento e da morte como momentos de transição de grande impacto em todos os Seres e oportunidades de grande transformações.

A doula não é profissional de saúde. Pode e deve trabalhar com eles. Nunca os substitui.

A doula não presta cuidados paliativos. Ninguém sozinho o faz. Um dos princípios dos cuidados paliativos é o trabalho em equipa. Assim, a doula pode articular o seu trabalho com uma equipa de cuidados paliativos. Faz a ponte com os profissionais de saúde;

A doula não tem género. Não é um trabalho exclusivo das mulheres. É um trabalho inclusivo de Ser. Os homens também podem ser doulas.

A doula é alguém que te ajuda a pensar sobre o teu projeto de vida e de fim de vida, mesmo se não tiveres nenhuma doença crónica.

A doula ajuda-te a viver melhor ajudando-te a refletir sobre as escolhas da tua vida. Pode estar ao teu lado nas fases de transição, nas diferentes perdas e lutos da tua vida.

doulasdofimdavida-1.jpg

Como a doula pode te ajudar

 

A doula...

Ajuda-te a refletir sobre os teus medos;
Facilita o planeamento no final da vida;
Colabora na realização do testamento vital;
Ajuda na mediação para que os desejos da pessoa que está de partida sejam honrados;
Ajuda na aceitação e pacificação do processo de morrer;
Ajuda a dar significado à vida e à morte;
Ajuda na mediação de conflitos (pessoais e familiares);
Ajuda na concretização de projetos e sonhos;
Proporciona medidas de conforto, bem estar e qualidade de vida, adequados à fase da vida e necessidades da pessoas (higiene, alimentação, outros). Cuidar de alguém requer saber cuidar e saber tocar.
Ajuda a tornar o ambiente mais tranquilo, acolhedor, amoroso, sagrado;
Proporciona técnicas de relaxamento, consoante a sua preparação (massagem, reflexologia, aromoterapia, musica, etc…);
Dá suporte emocional;
Ajuda na revisão de vida e suporte em projetos legados;
Proporciona educação, informação, clarificação de conceitos;
Fornece apoio logístico e domiciliário antes da partida (cuidar da casa, preparar refeições, acompanhamento a consultas, outros);
Fornece apoio logístico e domiciliário após o falecimento da pessoa querida (cuidar da casa, preparar refeições, outros);
Proporciona cuidados e está presente nos últimos dias e horas de vida;
Proporciona cuidados pós morte (a preparação do corpo, após a perda da sua energia vital, é a coisa mais íntima que se pode fazer por um ser humano. É um processo reservado e muito profundo);
Ajuda na realização de rituais, de acordo com cada crença espiritual e religiosa (antes, durante e após a morte);
Ajuda a re-ligare o sagrado à vida e à morte;
Ajuda na realização e planificação do funeral;
Cada pessoa é única, cada família é diferente. A doula adapta o seu trabalho às necessidades de cada um de forma confidencial, respeitosa e não julgadora.

A doula também te pode ajudar na perda do teu animal de estimação;
A doula pode ajudar-te na perda gestacional.

Sunset mountain

Porque é que o trabalho da doula é importante e difere do trabalho dos profissionais de saúde? 

 

(Uma bela parceria)

Existe um equívoco comum em pensar que o papel da doula do final da vida irá de alguma forma substituir os cuidados paliativos. Isto não poderia estar mais longe da verdade. Como um papel não médico, de base comunitária, as doulas em fim de vida servem como um parceiro importante da equipe de profissionais de saúde, trabalhando ao lado da família para defender os desejos da pessoa que está morrendo - antes, durante e após a morte.

Porque é um trabalho de relação mais profundo entre dois, ou mais, seres humanos.

Porque é uma relação de compaixão e empoderamento do outro.

Porque os profissionais de saúde têm o seu lugar e papel, extremamente importante, e não podem e/ou conseguem abrir-se a mais do que aquilo que é suposto eles fazerem. Porque é importante reconhecer que existe um espaço maior que precisa ser reconhecido e que vai além da relação técnica. Porque é importante abrir-nos a esse espaço. Porque é importante saber-mos como fazê-lo.

Porque a vida e o seu final são momentos sagrados e é preciso alguém que veja para além da relação técnica.

Porque o conforto emocional e espiritual fazem parte do ser humano, para além do corpo físico, e é importante alguém relembrar o seu significado e importância.

Porque é importante resgatarmos os ciclos da natureza em nós.

Image by Jordan Wozniak

Quem pode ser doula?

 

Pode ser Doula qualquer pessoa, profissional da saúde ou não, que sente o apelo para prestar cuidados, apoio e advocacia a alguém que está a defrontar-se com o fim da sua vida, bem como a sua família e amigos.

“A tristeza no coração humano precisa ser acompanhada de rituais e práticas que, quando praticadas, diminuirão a nossa raiva e permitem que a criatividade flua novamente."

- Matthew Fox - 
 
Image by Aleksandr Ledogorov

Porquê ser doula?

Porque todos nascemos e todos morremos.


Porque, quer queiramos ou não, todos conhecemos alguém próximo que já morreu ou irá morrer.


Porque todos fazemos parte dos ciclos da natureza.

Em todas as culturas, e apesar das diferentes crenças e tradições, a morte sempre foi encarada como uma transição importantíssima, um momento sagrado que era preciso honrar com presença, apreço e cuidados. Quem estava a morrer, não era afastado nem escondido, mas acolhido e acompanhado com compaixão e respeito. Como aconteceu com o parto, nos últimos 50 ou 60 anos, perdemos o contacto com essa sabedoria e transferimos o ato de morrer para as instituições e profissionais do sector, em espaços asséticos e impessoais, sem ninguém do seu círculo afetivo perto de si. Deixámos de velar, de ser presença atenta, de dar a mão a quem parte. E com isso, perdemos um pouco da nossa humanidade e da possibilidade de nos ligarmos uns aos outros. 

Porque precisamos resgatar a nossa humanidade e a nossa capacidade de nos sabermos ouvir uns aos outros, na nossa diferença.
 
Porque precisamos resgatar o espaço para o sagrado da vida.
 
Porque o processo de morte é uma oportunidade de conexão extraordinária e uma das dádivas mais preciosas que podemos partilhar. Porque a morte é um portal de Amor e uma oportunidade e o exponenciar em nós e no Mundo. 

Desconetámo-nos de tal forma da morte, que não sabemos lidar com ela, fingimos que não existe, escondemo-la, sussurramos o seu nome, como se assim pudéssemos afastar aquilo que é comum a todos os seres humanos, mas que temos tanta dificuldade em encarar: a nossa própria mortalidade. 

As doulas de fim de vida recuperam a tradição ancestral de cuidar das pessoas que estão a morrer, tornando mais fácil todo o processo de transição e abraçam o ato de morrer como uma das muitas fases da sua vida e não apenas como um final abrupto. A morte não acontece apenas quando perdemos o nosso corpo físico, depois de respirarmos pela última vez: este é apenas o último grande exercício de desapego nesta vida, mas existem muitos outros. Para vivermos de forma plena, é essencial retirar à palavra “morte” o peso opressivo a que tem sido submetida e dar-lhe outro sentido. Permitirmo-nos entende-la com mais leveza. A doula pode ajudar a fazer esta transição para ganharmos outro nível de consciência em relação à morte e à vida. A doula ajuda na criação de um novo paradigma da morte. De re-significação da Vida e da forma como vivemos. Mais do que acompanhar alguém que está a partir, hoje, à luz da sociedade atual, o papel da doula é ajudar nesta fase de transição e trazer a consciência da morte a todos os dias da nossa vida. Ajudar-nos a viver inteiros. E viver inteiros implica aceitar, integrar em nós a morte. Integrar as nossas sombras. Aquilo que nos assusta, pela sua falta de integração e aceitação, faz-nos sofrer. Afastar o que nos assusta não reduz o nosso sofrimento mas, pelo contrário, exponencia-o. Enterrar a cabeça debaixo da areia faz com que não vivamos todo o nosso potencial, afinal, vivemos com a cabeça debaixo da areia mesmo. Não conseguimos olhar para a vida e toda a sua plenitude. Vivemos cegos sem o sermos.

Porque é importante re-lembrar quem És.

Porque é importante aprender a Viver.

Porque viver a morte é falar sobre qualidade de vida, sobre escolhas. É falar sobre a nossa família, amigos, sobre as pessoas que amamos. É fazer as pazes. É escrever a história das nossas vidas como nós queremos que ela seja e não ficarmos dependentes das escolhas de outros. É Amar e ser amado. Falar sobre a morte implica uma mudança grande do paradigma social porque implica começarmos a assumir responsabilidades pelas nossas escolhas. Implica começarmos a falar sobre nós individualmente, mas também sobre o impacto de nós nos outros e no planeta. Falar sobre o fim da vida implica o resgate da ligação que perdemos com a Natureza. Falar sobre a morte é falar da Vida. 

Porque é importante devolver a morte à vida se não morremos antes de morrer.
 
Porque a mudança que queremos ver no mundo começa em nós.