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Repensar as Cerimónias Fúnebres


Os funerais sustentáveis são uma realidade cada vez mais presente fora de Portugal. Fico imensamente feliz por poder ser testemunha desta mudança de paradigma no Mundo. A forma como pensamos sobre a morte interfere na pegada, muito pouco ecológica, que o nosso corpo deixa na Terra.


De igual forma, as cerimónias fúnebres, podem ser celebradas de uma forma muito diferente daquela que tem sido a realidade de muitos nós. Podem ser celebrações à Vida da pessoa que partiu. Podem ser rituais de passagem para quem cá fica. Podem ser celebrações do Amor, ancoramento das necessidades emocionais de todos os presentes.


Ser testemunha destas celebrações faz com que nos queiramos aproximar mais destes momentos e não fugir desta realidade comum a todos nós.


Quando nos celebramos em Amor, também no nosso final de vida, relembramos que sempre foi o Amor que nos guiou e é com ele que queremos permanecer no nosso último respirar e na celebração da nossa Vida na Terra.


Deixo aqui um texto que escrevi para a celebração da vida de uma família que acompanhei e a quem agradeço, do fundo do coração, o nosso encontro.


"Somos instantes que respiram na continuidade do cosmos. Somos árvores com mil folhas que mudam de cor a cada estação. Somos folhas que caem e se transformam com o chão. Somos nuvens que viajam no impermanente movimento do tempo. Nuvens que desaparecem do céu e se transformam com o vento em mil formas diferentes. Um dia estamos cá. No outro instante já não. A nossa forma transforma-se. Deixamos de poder agarrar, beijar, abraçar, cheirar, saborear quem amamos. Mas a nuvem que somos apenas se transmutou e se fundiu no azul do céu. A folha que caiu apenas se transformou e dissolveu com o chão. Somos natureza impermanente que se transforma a cada momento. Deixamos de ver a nuvem mas continuamos a olhar o céu. Deixamos de ver as folhas mas continuamos a tocar o chão.

E o céu olha-nos de volta. E o chão acolhe os nossos passos.

Somos natureza vulnerável. Adoecemos. Envelhecemos.

A vida não é estéril. A vida não é isenta de dor e sofrimento. O sofrimento não é o oposto da vida. O sofrimento não é o lado negativo da vida. É parte integrante de quem somos e daquilo que compõe a própria vida. Na esterilidade a vida não existe e o caos, a transformação que experienciamos e sentimos várias vezes ao longo da nossa vida, é apenas a materialização do movimento e respirar da vida.

A morte é movimento da vida do qual fazemos parte. Presenciar, acompanhar e viver a vulnerabilidade do outro é permitir-nos sair da ilusão e olhar para a vida como ela realmente é.

A morte não é o oposto da vida. A vida nunca existiria se o tempo da morte não chegasse. É a morte que gera a vida e a vida que gera a morte.

Falar da morte é falar sobre qualidade de vida, sobre escolhas. É falar sobre a nossa família e amigos, sobre as pessoas que amamos. É escrever a história da nossa vida como nós queremos que ela seja e não ficarmos dependentes das escolhas de outros. É vivermo-nos inteiros. É celebrar-nos. É Amar e ser amado. É amar-nos. Falar sobre o fim da vida implica o resgate da ligação que perdemos com a Natureza. Falar sobre a morte é falar da Vida. E foi a Vida, foi Amor, foi beleza que vi acontecer ao acompanhar a Maria, o Martim e a mãe. Obrigada por serem Amor e espelharem o vosso Amor no Mundo.

É muito difícil atravessar uma tempestade sozinho. Nessas alturas, ter um colo, um espaço seguro, amoroso, quente e amigo é fundamental para conseguir ver a beleza inerente à própria tempestade. Obrigada por abrirem os vossos corações a verem e expandirem Amor principalmente numa altura de dor, de grande fragilidade e vulnerabilidade. Obrigada por se permitirem a transformar e a crescerem em Amor nesta passagem das vossas vidas. Obrigada por se permitirem a ressignificar crenças muito enraizadas e a trazerem novas formas de ser e de estar presentes numa das fases mais importantes da nossa vida: a nossa morte. Obrigada por serem um portal de Amor, neste grande portal da vossa mãe. Que esta passagem, da vossa mãe, seja um ritual de passagem para a vossa abertura ao coração à rede da Vida em Amor.

Vivemos tempos desafiantes no mundo em que vivemos. Qual a melhor forma para contribuirmos para que o Amor seja uma semente no coração de todos nós? Qual a melhor forma de reverenciar o corpo de Deus na Terra? Acredito que é sendo a transformação que queremos ver no mundo. Permitindo-nos a ser e fazer de forma diferente, em Amor.

Obrigada por vós. Obrigada por serem sementes de Amor."


Ana Catarina Infante

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