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Decomposição

Depois e um olhar rápido sobre o dicionário, o que aparece descrito sobre esta palavra é: “separar os elementos ou partes constitutivas de; desfazer; entrar em putrefação; corromper; alterar; modificar; deformar.

Decompor é sinónimo de: desagregar, desintegrar, dissociar, dissolver, colapsar, desfazer, corromper, alterar, modificar, deformar.”



Não existe uma fórmula mágica que separe a vida terrena do fenómeno da decomposição da matéria. Este facto da existência humana, animal, vegetal, é o húmus (que deriva do latim humus – terra) da própria vida. É a própria magia. O genuíno milagre. É a qualidade fertilizante fundamental que serve de alimento a toda a vida no planeta.


A forma como a maior parte dos seres humanos olha para a vulnerabilidade, e este facto intrínseco à vida (a decomposição), é um fator de sofrimento vertiginoso. Nós somos seres em constante movimento interno. Em dissolução contínua. O caos, o colapso, as alterações da nossa forma, desde que fomos concebidos, são inabaláveis. Nós não temos uma forma fixa e imutável. Os lugares de desintegração são os nossos espaços naturais. A ideia que controlamos algo é uma ilusão. Então de onde vem o nosso espanto? De onde vem o nosso medo daquilo que é a essência central à nossa existência? De onde vem a escolha pelo sofrimento que carregamos e ampliamos a cada dia?


Jung definiu arquétipo como um conjunto de imagens primordiais oriundas da repetição sucessiva de uma mesma experiência e armazenadas no inconsciente coletivo. A forma o conceito de decomposição, e outros relacionados, eclodem do nosso inconsciente, invadindo a consciência, e a nossa vida pessoal, interfere na forma como sentimos e agimos no mundo. Não podemos mudar o inconsciente coletivo e a forma como ele nos influência, mas podemos ressignificar estes conceitos, principalmente quando dão origem a mais sofrimento individual, coletivo, para o planeta e todos os seres que nele habitam. Ao ressignificarmos estes conceitos normóticos, ativamos os neurotransmissores da felicidade no nosso cérebro, em vez de os inibirmos.


Há medida que vamos envelhecendo o nosso corpo reclama para voltar à terra. Para decrescer. E quando morre, é fator cientifico conhecido que um gene, até aí adormecido, é ativado, nesse preciso momento, e que dá origem a uma grande festa ecológica de bactérias, fungos e todos os seres que vivem conosco. Eles então, têm autorização para proliferarem e se alimentarem de nós. A descido ao reino da putrefação e da podridão é uma descida ecológica, natural, que não deixa espaço para lixo e desperdício. Conta a história que Jesus ascendeu ao céu. Acredito, com alguma confiança, que o seu corpo desceu à terra e que ela o abraçou com todo o seu Amor de Mãe e o embalou, no seu colo mágico. Acredito que o seu corpo abraçou de volta a sua Mãe.


Temos interpretado estes conceitos como negativos e ao fazê-lo exponenciamos o nosso sofrimento, que nunca reduz porque não podemos mudar a natureza da vida que somos. Então porque não mudar a forma como olhamos para eles?


A putrefação, a decomposição, a podridão são mudança, transformação, renovação. São pertença à vida. São restituição. São um mergulho amoroso no corpo da terra e entrega a todos os seres. São relação e consagração amorosa de igualdade entre todos os seres. São um salto de fé no vazio daquilo que sempre foi, É e Somos. Mudança.


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